Há uns cinco
anos atrás, o então recém
formado grupo Memória Berço
do Samba, criado para resgatar a honra
e orgulho de ser Estácio, que
na ocasião, desfilava no terceiro
grupo de acesso, exigia uma homenagem
ao criador das escolas de samba, Ismael
Silva. Um busto, na praça do
Largo do Estácio, o nome na quadra
ou na Passarela do Samba. O nome na
quadra foi conseguido, no Sambódromo,
nem pensar!
Mas no dia 17 de setembro, em homenagem
aos 105 anos do fundador da Deixa Falar,
a Secretaria de Conservação
e Serviços Públicos, junto
da Diretoria da Estácio de Sá,
inauguraram a estátua em homenagem
ao “Antonico” do Morro de
São Carlos. E fez mais, a partir
de agora, adotou a data de fundação
da primeira escola, sendo assim, a mais
antiga agremiação do mundo!
A homenagem, que começou pela
manhã, teve um almoço
servido aos convidados e apresentação
de cantores, como Dorina, Dominguinhos,
Wilson Moreira e grupos da casa.
A presença de personalidades
do mundo do samba, como Tia Surica da
Portela, Ivan Milanez, do Império,
Gera, da Vila Isabel e Nilcemar Nogueira,
da Mangueira, demonstrou o respeito
pelo Pai das Escolas de Samba.
Lá do alto, Ismael dedilha os
seus acordes e agradece: “A razão
dá-se a quem tem!”
Ismael Silva
Por seus olhos doces e fala educada,
Vinicius de Moraes o apelidou de "São
Ismael". Nascido em Jurujuba, em
Niterói, Ismael Silva ficou órfão
de pai aos três anos tendo que
se mudar com sua mãe para o bairro
Estácio de Sá. Prodígio,
com 15 anos viria a compor o seu primeiro
samba "Já Desisti".
Ao contrário do que diz o título
da canção, Ismael estava
apenas começando sua vida como
compositor.
Frequentador assíduo do Bar e
Café Apolo, começa a se
enturmar com grandes sambistas da época
e compõe "Me faz carinhos".
O samba foi gravado por um pianista
conhecido como Cebola e logo caiu nos
ouvidos do famoso cantor Francisco Alves.
Nessa época, Ismael Silva estava
internado e foi o compositor e amigo
Bide quem lhe deu a boa notícia.
Francisco Alves estava oferecendo 20
mil réis pela composição.
No entanto, Ismael deveria vender não
só o samba como também
a sua autoria. Na situação
em que se encontrava, doente num quarto
de hospital, ele aceita a proposta e
"Me Faz Carinhos" é
lançada com autoria e voz de
Francisco Alves.
Após esse episódio, Ismael
propõe um acordo ao cantor no
qual as próximas composições
deveriam levar seu nome e de parceiro
da época, Nilton Bastos. Com
o negócio fechado, por um longo
período a assinatura de Ismael
em suas letras começa a ter companhia.
Mesmo quando não havia participação
de Nilton, o nome de Chico estava presente.
Em 1928, Ismael Silva entra para a história
do Carnaval do Rio de Janeiro ao fundar
a primeira escola de samba, "Deixa
Falar". No primeiro desfile, em
1929, Ismael estava impecável
com seu tradicional terno de linho branco
puxando a escola pela Praça Onze.
Os anos seguintes foram de muita produtividade.
"Não há", "Nem
é bom falar" e "Se
você jurar", todas em parceria
com Bastos, foram lançadas em
1931. Depois, com a morte do parceiro,
Ismael é apresentado por Francisco
Alves a Noel Rosa. A partir desse encontro,
surgem as composições
"Para me livrar do mal", "Adeus",
"Uma Jura que fiz", entre
outras.
Algum tempo depois, Ismael vive o episódio
que marcaria o revés de sua carreira.
Em 1935, foi preso após se envolver
em uma confusão e atirar em um
homem. Os tiros foram disparados nas
nádegas de um malandro chamado
Edu Mortorneiro que havia se engraçado
com sua irmã, Orestina. O compositor
é condenado a cinco anos de prisão,
mas é solto em 1938 por bom comportamento.
Ao sair da prisão, Ismael se
sente totalmente perdido. Já
sem a companhia de seu parceiro Noel
Rosa, que faleceu enquanto o compositor
cumpria a pena, decide isolar-se. É
somente com "Antonico", composição
gravada por Alcides Gerardi, que Ismael
volta à cena musical.
A partir daí, começa a
frequentar o Zicartola, bar e restaurante,
aonde compositores se encontravam, no
Rio de Janeiro. Em seguida é
chamado para participar do musical "O
samba pede passagem", com Araci
de Almeida, no Teatro Opinião.
Novamente em destaque, em 1973 grava
ainda pela RCA o disco "Se você
jurar", que apresentava obras do
passado e inéditas. Entre elas,
"Contrastes, Alegria, Alias e Receio.
Tendo que se apropriar do uso de muletas,
em decorrência de suas varizes
nas pernas, o compositor passa a diminuir
cada vez mais os seus números
de shows. Foi então que um ataque
cardíaco fulminante tira Ismael
Silva de vez da cena da música
popular brasileira da época.
Em 14 de março de 1978, o compositor
veio a falecer.
Na década de
1920, Ismael Silva foi um dos nomes
do samba mais importantes surgidos no
Estácio, batendo compositores
como Cartola e Bide. Suas composições
eram as mais tocadas nas rádios
da época, na maioria das vezes
interpretados por Mário Reis
e Francisco Alves.
No começo dos anos 30, foi o
responsável por agregar ao samba
instrumentos de percussão deixando-o
assim mais ritmado e acelerado. Fazendo,
literalmente, escola para as futuras
Escolas de Samba que surgiriam no Rio
de Janeiro.
Como bem definiu Vinicius de Moraes,
Ismael foi "um dos três maiores
sambistas cariocas de todos os tempos".
Curiosidades
Fãs de Peso
Entre muitos nomes da música
popular brasileira que admiravam o trabalho
de Ismael, estava o do cantor Chico
Buarque. Em 1970, quando ganhou um prêmio
em dinheiro do Governo do Estado da
Guanabara, o cantor doou o cheque ao
compositor. Mesmo passando por dificuldades
financeiras, Ismael demorou um bom tempo
para descontar o dinheiro. Preferiu
exibir para os amigos o gesto de respeito
e carinho, mostrando lhes a assinatura
de Chico.
Por ti tudo chora
Entre os muitos parceiros musicais que
teria ao longo da vida, Nilton Bastos
foi o primeiro a dividir com o compositor
suas autorias. Após sua morte,
aos 32 anos de tuberculose, Ismael compôs
o samba "Adeus" em sua homenagem.
Sucesso na voz dos brancos
Francisco Alves era o cantor que se
auto-intitulava parceiro e compositor
de Ismael, sem ao menos ter escrito
um verso ao seu lado. Durante um de
seus shows, o público pediu a
presença de Ismael no palco.
Ao subir, o compositor foi apresentado
por Francisco como "este é
o Ismael Silva, o preto de alma branca".
Arco-íris no samba
Apesar do assunto não ser abertamente
comentado, existiam boatos de que Ismael
Silva fosse homossexual. Quando aconteceu
o episódio que o levaria para
a cadeia, chegaram a dizer que a confusão
havia se formado por disputa de mulher.
No entanto, essa versão foi logo
descartada, pois muitos acreditavam
que esta não era a preferência
sexual do compositor.
Certa vez, o escritor Luis Antônio
Giron, na obra "Mário Reis:
o fino do samba", escreveu que
"Ismael destacava-se dos outros,
pois se vestia melhor, usava jóias
e era homossexual assumido". Durante
toda sua vida, o único romance
do compositor que veio a tona foi com
uma passista chamada Diva Lopes Nascimento,
em 1936, com quem teve uma filha que
nunca assumiu.
Pedido negado
Em 1965, sem dinheiro para pagar o ingresso
para ver os desfiles das escolas de
samba do Rio de Janeiro, Ismael escreve
ao jornal Correio da Manhã pedindo
para que o secretário de turismo
lhe desse um ingresso. Sem sucesso.
Assim, decepcionado, o compositor escreve
para o mesmo jornal afirmando que "é
injusto que a criação
[escolhas de samba] receba auxílio
do governo enquanto o criador cai no
esquecimento".
Em 1973, a Secretaria de Turismo resolve
conceder dois ingressos a cadeiras cativas.
No ano seguinte, para a frustração
de Ismael, o compositor foi barrado
e impedido de assistir ao desfile. Em
1977, como pedido de desculpas, o compositor
recebe os ingressos em sua casa. No
entanto, seu lugar na cadeira cativa
havia se mudado para as arquibancadas.
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