Com relação às escolas de samba
cariocas – cujos terreiros (terreiros e não
“quadras”, como hoje) até os
anos de 1970 obedeciam a um regimento tácito
semelhante ao dos barracões de candomblé,
com acesso à roda permitido somente às
mulheres, por exemplo –, veja-se que elas,
hoje, são, ainda, um veículo em que
a temática africana é recorrente.
Muito embora seus enredos e sambas enfoquem a África
por uma perspectiva meramente folclorizante.
O samba-enredo – esclareçamos –
é uma modalidade de samba que consiste em
letra e melodia criadas a partir do resumo do tema
elaborado como enredo de uma escola de samba. Os
primeiros sambas-enredo eram de livre criação:
falavam da natureza, do próprio samba, da
realidade dos sambistas. Com a oficialização
dos concursos, na década de 1930, veio a
exaltação dirigida de personagens
e fatos históricos. Os enredos passaram a
contar a história do ponto de vista da classe
dominante, abordando os acontecimentos de forma
nostálgica e ufanística. A reversão
desse quadro só começou a vir em 1959,
quando a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro
apresentou, com uma homenagem ao pintor francês
Debret, e com grande efeito visual, o cotidiano
dos negros no Brasil à época da colônia
e do Império, o que motivou uma seqüência
de enredos sobre Palmares, Chica da Silva, Aleijadinho
e Chico Rei, voltados para o continente africano.
Mas, se a ingerência governamental já
não era tão forte, pelo menos enquanto
cerceamento da liberdade na criação
dos temas, um outro tipo de interferência
começava a nascer: a dos cenógrafos
de formação erudita ou treinados no
show-business, criadores desses enredos, os quais
imprimiram ao carnaval das escolas a feição
que ele hoje ostenta e que, direta ou indiretamente,
selaram o destino dos sambas-enredo. Tanto que,
no final do século XIX, o samba-enredo é
um gênero em franca decadência. Em cerca
de 60 anos de existência, no entanto, a modalidade
mostrou sua força em dezenas de obras antológicas.
Entre os enredos apresentados pelas escolas de samba
cariocas das várias divisões, a partir
de 1948, muitos fazem referência mais direta
à África, como, por exemplo: “Navio
negreiro” (Vila Isabel, 1948, e Salgueiro,
1957), “Quilombo dos Palmares” (Salgueiro,
1960, Viradouro, 1970, e Unidos de Padre Miguel,
1984), “Chico Rei” (União de
Vaz Lobo, 1960, Salgueiro, 1964, e Viradouro, 1967),
“Ganga Zumba” (Unidos da Tijuca, 1972),
“Valongo” (Salgueiro, 1976, e Unidos
de Padre Miguel, 1988), “Galanga, o Chico
Rei” (Unidos de Nilópolis, 1982), “Ganga
Zumba, raiz da liberdade” (Engenho da Rainha,
1986). Isso sem falar em outros tantos temas como
“Porque Oxalá usa ekodidé”,
“Oju Obá”, “Logun, príncipe
de Efan”, “O mito sagrado de Ifé”,
“Oxumaré, a lenda do arco-íris”,
“Alafin Oyó”, “Príncipe
Obá, rei dos descamisados”, “Ngola
Djanga”, “De Daomé a São
Luiz, a pureza mina-jeje”, “Império
negro, um sonho de liberdade, “Kizomba, festa
da raça”, “Preto de vassalagem
a Olorum” etc.
De alguns desses títulos, selecionamos, como
exemplo de abordagens, e sem maiores comentários,
alguns trechos:
África... misteriosa África/ Magia,
no rufar dos tambores se fez reinar/ Raiz que se
alastrou por este imenso Brasil/ Terra dos santos
que ela não viu... (“Os santos que
a África não viu”, Grande Rio,
1996 – Mais Velho, Rocco Filho, Roxidiê,
Helinho 107, Marquinhos e Pipoca); África
encanto e magia/ Berço da sabedoria/ Razão
do meu cantar/ Nasceu a liberdade a ferro e fogo/
A Mãe Negra abriu o jogo/ Fez o povo delirar...
(“Quando o samba era samba”, Portela,
1996 – Wilson Cruz, Cláudio Russo,
Zé Luiz); Vem a lua de Luanda/ Para iluminar
a rua/ Nossa sede é nossa sede/ De que o
apartheid se destrua... (“Kizomba, festa da
raça”, Vila Isabel, 1988 – Rodolfo,
Jonas e Luiz Carlos da Vila); Vivia no litoral africano/
Uma régia tribo ordeira/ Cujo rei era símbolo/
De uma terra laboriosa e hospitaleira/ Um dia essa
tranqüilidade sucumbiu/ Quando os portugueses
invadiram/ capturando homens/ para fazê-los
escravos no Brasil/ na viagem agonizante/ Houve
gritos alucinantes/ Lamentos de dor/ Ô ô
ô, adeus baobá, ô ô ô/
Ô ô ô, adeus meu Bengo, eu já
vou... (“Chico Rei”, Salgueiro, 1965
– Geraldo Babão, Djalma Sabiá
e Binha); Ilu Aiê, Ilu Aiê, odara! /
Negro cantava na nação nagô/
Depois chorou lamento de senzala/ Tão longe
estava de sua Ilu Aiê... (“Ilu Aiê,
terra da vida”, Portela, 1972 – Cabana
e Norival Reis); Bailou no ar/ O ecoar de um canto
de alegria/ Três princesas africanas/ Na sagrada
Bahia/ Ia Kalá, Iá Adetá, Iá
Nassó/ Cantaram assim a tradição
nagô/ Olorum, senhor do infinito/ Ordena que
Obatalá/ faça a criação
do mundo/ ele partir, despreando bará/ E
no caminho adormecendo/ Se perdeu/ Odudua, a divina
senhora chegou... (“A criação
do mundo segundo a tradição nagô”,
Beija-Flor, 1978 – Neguinho da Beija-Flor,
Mazinho e Gilson); Conta a lenda que a deusa Oiá/
Foi aconselhar Ifá/ A buscar a cura em Sabadã/
Pra Obaluaiê se levantar... (“O bailar
dos ventos, relampejou, mas não choveu”,
Salgueiro, 1980 – Ala dos Compositores); Lá
da África distante/ Trouxeram o misticismo
da magia/ maçons e mestres alufás/
Usavam estratégia e ousadia... (“Salamaleikun,
a epopéia dos insubmissos malês”,
Unidos da Tijuca, 1984 – Carlinhos Melodia,
Jorge Moreira e Nogueirinha); Esta negra caprichosa/
Convidou o rei da Costa do Marfim/ E o recebeu de
forma suntuosa/ A festa parecia não ter fim...
(“O rei da Costa do Marfim visita Xica da
Silva em Diamantina”, Imperatriz, 1983 –
Matias de Freitas, Carlinhos Boemia e Nelson Lima);
Lua alta/ Som constante/ Ressoam os atabaques/ lembrando
a África distante... (“Misticismo da
África ao Brasil”, Império da
Tijuca, 1971 – Marinho da Muda).
Sobre a predominância, nesses sambas, de temas
ligados ao universo iorubano, observe-se que isso
ocorre pela maior visibilidade que essa matriz tem
no Brasil, notadamente através da Bahia.
A Bahia, graças principalmente à sua
capital, é internacionalmente conhecida pela
riqueza de suas tradições africanas,
apropriadas como verdadeiros símbolos nacionais
brasileiros. Segundo algumas interpretações,
a visibilização desse precioso acervo
cultural teria ocorrido pela presença histórica,
em Salvador e no Recôncavo Baiano, de diversas
“nações” africanas organizadas,
e muitas vezes adversárias, cada uma ciosa
de sua identidade étnica. E isto teria feito
com que, lá, no combate ao racismo, os afro-descendentes
se destacassem mais fortemente através da
afirmação de suas expressões
culturais específicas do que através
da luta política, como em São Paulo,
por exemplo. Entretanto, veja-se que personagens
como Chico Rei, Ganga Zumba, Zumbi e Rainha Jinga,
pertencentes ao universo banto, são também
bastante freqüentes nos enredos que relacionamos.
A África distante, cada vez mais:
A presença africana na música brasileira,
pelo menos em referências expressas, vai se
tornando cada vez mais rarefeita. Aparece, via Jamaica,
no carnaval dos blocos afro-baianos e nos sambas-enredo
das escolas cariocas e paulistanas – especialmente
nas homenagens a divindades. Mas nada de modo tão
intenso como ocorre na música que se faz
em Cuba e em outros países do Caribe.
No Brasil, o samba, a partir da década de
1990, apesar da voga inicial de grupos cujos nomes
(mas só os nomes) evocavam a ancestralidade
africana (Raça Negra, Negritude Júnior,
Suingue da Cor, Os Morenos etc.), entendemos que
foi se transformando em um produto cada vez mais
fútil e imediatista para se preocupar com
etnicidade. E isto talvez por conta do conjunto
de estratégias de desqualificação
que ainda hoje sustentam as bases do racismo antinegro
no Brasil. É esse racismo que, no nosso entender,
vai cada vez mais separando coisas indissociáveis,
como o samba e a macumba, a ginga e a mandinga,
a música religiosa e a música profana,
desafricanizando, enfim, a música popular
brasileira. Ou “africanizando-a” só
na aparência, ao sabor de modas globalizantes
made in Jamaica ou Bronx.
Desafricanização, como sabemos, é
o processo por meio do qual se tira ou procura tirar
de um tema ou de um indivíduo os conteúdos
que o identificam como de origem africana. À
época do escravismo, a principal estratégia
dos dominadores nas Américas era fazer com
que os cativos esquecessem o mais rapidamente sua
condição de africanos e assumissem
a de “negros”, marca de subalternidade.
Isto para prevenir o banzo e o desejo de rebelião
ou fuga, reações freqüentes,
posto que antagônicas.
O processo de desafricanização começava
ainda no continente de origem, com conversões
forçadas ao cristianismo, antes do embarque.
Depois, vinha a adoção compulsória
do nome cristão, seguido do sobrenome do
dono o que representava, para o africano, verdadeira
e trágica amputação. Então,
vinham as distinções clássicas
entre “da costa” e “crioulo”,
entre “boçal” e “ladino”.
Acreditamos que a música popular brasileira,
de raízes tão acentuadamente africanas,
seja vítima de um processo de desafricanização
ainda em curso. Senão, vejamos. Quando a
bossa-nova resolveu simplificar a complexa polirritmia
do samba e restringir sua percussão ao estritamente
necessário, não estaria embutido nesse
gesto, tido apenas como estético, uma intenção
desafricanizadora? E quando a indústria fonográfica
procura modernizar os ritmos afro-nordestinos (de
maracatu para mangue-beat, por exemplo), não
estará querendo fazer deles menos “boçais”
e mais “ladinos”, pela absorção
de conteúdos do pop internacional?
Pois esse pop milionário, sem pátria
e sem identidade palpável (mesmo quando pretende
ser “étnico”), é exatamente
aquela parte da música dos negros americanos
que a indústria do entretenimento desafricanizou.
A Estácio de Sá teve seus “dias
negros”: 1972 - RIO GRANDE DO SUL NA FESTA
DO PRETO FORRO
(Nilo Mendes, Dario Marciano)
O negro na senzala cruciante/ Olhando o céu
pedia a todo instante
Em seu canto e lamentos de saudade/ Apenas uma coisa:
Liberdade!
1976 - ARTE NEGRA NA LEGENDÁRIA BAHIA
(Caruso, Caramba, Dominguinhos do Estácio)
Abram alas meus tumbeiros/ Aos sete portais da Bahia
É a arte negra que desfila/ Com seus encantos
e magia
Da sua terra, trouxeram a saudade/ A capoeira, o
berimbau
Os enfeites coloridos/ O pilão, colher de
pau
1983 - ORFEU DO CARNAVAL
(Djalma Branco, Caruso)
No verso apaixonado de Orfeu/ Reina uma mulher somente
sua
Por este amor maior que o envolveu/ Enlouqueceu
e vagou pela rua
2001 - E AÍ, TEM PATROCÍNIO? TEMOS:
JOSÉ
(Edyr Carvalho, Zé Pezão, Zé
Carlos, Fernando de Lima)
E aí, tem patrocínio?/ Temos: José
Estácio, quanta sedução!/ Esse
grande brasileiro
Que mostrou ao mundo inteiro/ O sonho da libertação
Outras escolas também fizeram enredos com
temáticas negras, mas o samba-patrocínio
vem tomando conta da cidade. É o assunto
da próxima semana.
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